Luca

Luca

 

Naturalmente, ela parou tudo para parir
Partiu do princípio
Que as dores do parto fazem parte
Do particípio presente que está por vir

Dançante, Andante, Cadente, Pensante…

Das contrações ritmadas e decididas à luz
Do ventre ao colo quente
Da escuridão do interior à experiência dos sentidos,
Natural como deve ser.

 

O Rio Doce e o Mar

REGENCIA/ES 22-11-2015 CIDADES BARRAGEM LAMA MAR A lama de rejeitos de minério que vazou da barragem da Samarco - cujos donos são a Vale a anglo-australiana BHP Billiton - em Mariana (MG) já chegou ao mar, neste domingo (22), após passar pelo trecho do Rio Doce no distrito de Regência, em Linhares, no Norte do Espírito Santo, segundo o Serviço Geológico do Brasil. FOTO GABRIELA BILO / ESTADAO

Doeu vê-lo morimbundo
Espalhando mortos por suas margens
Fluindo devagar, meio sem rumo
Como se quisesse voltar o tempo
E nascer de novo

Sem barragem
Sem dragagem

Sem assoreamento
Sem tormento

Sem esgoto
Sem o bicho homem escroto

Mas seguiu em frente
Encontrou o mar e o pintou de barro
Como quem encontra um velho amigo
O abraça, chora e divide o fardo

VALE quanto pesa, vil mineral?
VALE quanto lesa, ardil descomunal.

11 anos

Não direi que parece que foi ontem
Porque não foi
Onze anos é tempo amplo, latifúndio de horas
Não se resume num dia de Leopold Bloom por James Joyce

Também não direi que muita água passou debaixo da ponte
Ainda mais em tempos de crise hídrica
Quando tive sede de sua presença e seu sorriso
Você a matou, sempre.

Não vou dizer que somos feito vinho
Que quanto mais velhos, melhores
Mas temos passado com leveza pelo tempo
No meu caso, de forma – ou fora de forma – não literal. 🙂

Éramos dois e nos tornamos um
Sem simbiose doentia, com sadios amor e respeito
Viramos cinco na arte de fazer meninos bonitos
E ganhamos a companhia louca e luxuosa de Théo, Gael e Luca.

Obrigado por tudo, Naymme! Minha musa que não combina com clichês.

Do seu sempre Pôco, Richard Jério e Jorge Clone.

cassadim II

Caídos

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Anjos caídos
Não caem do céu
como cai o dinheiro

Anjos caídos
Não usam bandaid
Quando partem suas cabeças ao meio

Anjos caídos
agora querem paraquedas
para pousarem inteiros

Anjos caídos
Desejam ser mortais
Só para provarem seus beijos

Théo e Gael

Théo e Gael

São dois
E os chamo de filhos
Porque os são

São infinitos
Quase me tiram dos trilhos
Porque andam na contra mão

São lindos
Aos olhos alheios, colírios
Porque tem pedaços da mãe

São alvos
De tudo de bom que sentimos
Porque são frutos do amor

São distintos
Mesmo tão parecidos
Porque são únicas canções

São céu
Onde nos encontramos
Porque são Théo e Gael

Lua

 
Lua, de tão perto
Sua luz é meu abrigo
Enquanto corro, vai me seguindo
Faz do céu, meu chão batido

Lua, de tão nova
Escurece o clarão
Nua, quando cheia
Esvazia a escuridão

Lua de todos amores
Lua de alguns horrores
Não há noite que valha a pena
Quando não estás no céu

Lua do passo lento do astronauta
Lua dessa atração que a maré tem
Sem tua luz pra ser meu guia
“Houston, i have a problem”

Foi-se

Não viu que os filhos cresceram
Terceirizou carinho e educação
Não percebeu a esposa distante
Mesmo ao seu lado, por obrigação

Trabalhou tanto ao ponto
De fraturar os ossos do ofício
Expostamente, em mil pedaços
Bem na altura de sua felicidade

Trabalhou duro feito um asno
acumulou dinheiro e satisfação
Em seu legado de fortuna e bens
Não havia qualquer boa recordação

Por parte dos filhos
Ilhas que não visitou
Por parte da esposa
Trilha que não explorou

Em seus últimos dias, bem doente
quis muito consertar tudo
Esqueceu que o tempo nos ensina
Mas não volta, pra fazermos de novo

Foi-se e foi incrível sua capacidade de desmoronar sorrisos.

CowParade e Marcelo Nitsche

Hoje vi uma cidade
Onde vacas enfeitadas brincam o carnaval
Imóveis, plantadas, árvores inúteis
sem mel, sem sal

Nada pulsa em suas veias
mesmo porque não as tem
Não observam nada
Não ouvem nada
Não ruminam
Não respiram
Nem soltam pum

Os que fazem tudo isso
Observam-nas perplexos e admirados
E eu faço uma pergunta:
“Uai, e a vaquinha da Rua Leopoldina?”

Amando a mando de quem?

Ela está amando
Mas quer saber a mando de quem
Para poder matá-lo

Não era o momento
Tanta coisa pra fazer
E agora essa perda inoportuna de tempo

Esse vento que sopra sem parar
Inflando suas velas de paixão e pieguice
E a levando pra longe

Do seu autocontrole
Da sua pressa
Da sua decisão

No fundo ela gostava mesmo
Era de ficar buscando
O que não se pode encontrar

Mas achou.

Calanguices

calango

 

Estive apto a romper com tudo
Sorrindo horrores
Como quem fuzila suas vaidades no paredão
Por onde sobem calangos
Aqueles bichos que repõe os rabos
Depois que a gente os arranca
Loucos em pedradas infantis
Esqueço de tudo
Sigo adiante para pedir bis

Inspiração

A inspiração por vezes some
Paro, expiro, inspiro
E nada acontece porque não é por aí

Mudo de posição
Troco a fonte no editor
E nada porque também não é por aí

Leio algo bom, reflito
Até começo a escrever
De forma xoxa, pálida e combalida

Medito, faço yoga, desço do salto
Sem resultado, durmo
Sem que um verso vire prosa da boa

Acabei descobrindo que posso procurá-la
Mas sempre é ela que me encontra
Quando quer, no seu tempo, a qualquer hora.

Eu quero minha Mãe

Balas perdidas no morro o encontraram
E enquanto sangrava imóvel,
Ouviu na barulheira do silêncio sua dor:

“Filho,
És filho da puta
Óbvio que não mente
Dessa que te pariu

Filho,
És filho bastardo
Óbvio que você sente
A falta do cara que nunca viu”

Uma bala no peito
E outra no baço
Em minutos será menos um

Da laranja, o bagaço
Do suór, o cheiro do aço
Da traição, o beijo e o abraço
Do IML, um desembaraço

Se arrependeu amargamente de não ter seguido os conselhos da mãe.

Gravidade

Não tenho medo de altura
Só da gravidade
Aquela força que me atraca ao chão

Talvez sendo mais branda
Saberia como se sentem
Balões de hélio e bolhas de sabão

Mas ela insiste em me puxar pra baixo
Em me deixar preso nos meus passos
É meu desejo na contra mão